O início de 2026 marca um período de transformações estruturais para a psicologia e a saúde mental no Brasil, caracterizado por uma convergência sem precedentes entre pressões legislativas, inovações tecnológicas de inteligência artificial e uma reconfiguração da atuação clínica frente ao sistema judiciário. Este relatório detalha os acontecimentos ocorridos entre 1º e 31 de janeiro de 2026, oferecendo uma análise técnica e contextualizada para o profissional que busca compreender não apenas os fatos, mas as tendências de longo prazo que impactam a categoria.
Avanços e Tensões no Cenário Legislativo: A Luta pela Valorização Profissional
O mês de janeiro foi decisivo para a tramitação de projetos de lei que visam reestruturar as condições de trabalho dos psicólogos no Brasil. A categoria enfrenta um paradoxo: ao mesmo tempo em que a demanda por serviços de saúde mental atinge níveis históricos, a precarização dos honorários e a sobrecarga de trabalho ameaçam a sustentabilidade da prática clínica.
A Tramitação do Piso Salarial e a Jornada de 30 Horas
O Projeto de Lei (PL) $3.086/2024$, que propõe a fixação da jornada semanal de trabalho em até 30 horas e estabelece um piso salarial de $R\$ 4.750,00$ para a categoria, avançou em sua tramitação no Senado Federal em janeiro de 2026. O projeto encontra-se atualmente na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), onde o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e os Conselhos Regionais (CRPs) têm realizado uma mobilização virtual intensa para garantir o apoio dos parlamentares.
A relevância desta pauta para o profissional é dupla. Primeiramente, a limitação da jornada para 30 horas sem redução salarial é reconhecida por especialistas como uma medida de biossegurança, dado que a natureza do trabalho psicológico exige uma carga cognitiva e emocional que, quando excedida, leva ao esgotamento profissional (burnout). Em segundo lugar, o estabelecimento de um piso nacional visa reduzir a disparidade salarial entre diferentes regiões e setores de atuação, combatendo a tendência de baixas remunerações oferecidas por grandes redes de atendimento e plataformas digitais.
| Proposição Legislativa | Objeto de Regulamentação | Órgão Relator / Status |
| PL 3.086/2024 | Piso salarial de $R\$ 4.750,00$ e jornada de 30 horas | Comissão de Assuntos Econômicos (Senado) |
| SUG 12/2025 | Piso de $R\$ 100,00$ por atendimento em convênios e apps | Comissão de Direitos Humanos (Senado) |
| SUG 1/2024 | Prática exclusiva da psicoterapia para psicólogos e médicos | Relatoria da Senadora Mara Gabrilli |
| PL 2122/2025 | Atuação de psicólogos para relações interpessoais nas escolas | Aprovado na Câmara; segue para o Senado |
A Regulação do Mercado de Saúde Suplementar e Plataformas
Paralelamente ao piso salarial geral, a Sugestão Legislativa (SUG) $12/2025$ ganhou destaque em janeiro ao propor um piso nacional de $R\$ 100,00$ por atendimento individual especificamente para planos de saúde e plataformas digitais. O texto prevê ainda um reajuste anual pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) e sanções para as operadoras que descumprirem o valor mínimo. Esta medida tenta conter o fenômeno da “uberização” da psicologia, onde profissionais muitas vezes recebem valores irrisórios por consulta, comprometendo a qualidade ética do atendimento e a formação contínua.
Outra movimentação de extrema importância técnica é a SUG $1/2024$, que propõe que a prática da psicoterapia seja de caráter exclusivo de psicólogos e médicos psiquiatras. Em janeiro de 2026, a matéria seguia com a relatoria da Senadora Mara Gabrilli, enfrentando debates acalorados em audiências públicas. O cerne da questão reside na proteção da sociedade contra práticas sem fundamentação científica, realizadas por indivíduos sem formação acadêmica regulamentada, que muitas vezes utilizam títulos ambíguos para oferecer intervenções profundas na psique humana.
Psicologia e Assistência Social na Educação Básica
No campo da psicologia escolar, a aprovação do Projeto de Lei $2122/2025$ pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados representa um avanço significativo. O projeto especifica as ações que as equipes multiprofissionais de psicólogos e assistentes sociais devem adotar para melhorar as relações interpessoais nas escolas. As diretrizes incluem:
- Oferta de suporte socioemocional direto aos estudantes.
- Promoção de medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying e cyberbullying.
- Implementação de atividades de escuta ativa e combate à desinformação (fake news) no ambiente digital escolar.
Esta legislação altera a lei que já garantia o acesso a esses profissionais na educação básica, mas que carecia de detalhamento sobre o escopo de atuação. Para o psicólogo escolar, a medida oferece um respaldo jurídico mais sólido para intervenções preventivas, afastando a prática de uma visão puramente clínica ou medicalizante dentro da escola.
Janeiro Branco 2026: Paz, Equilíbrio e o Desafio da Saúde Mental Coletiva
A campanha Janeiro Branco, em seu 12º ano de existência, consolidou-se em 2026 sob o lema “Paz, Equilíbrio e Saúde Mental”. Criada pelo psicólogo mineiro Leonardo Abrahão em 2014, a iniciativa transcendeu o campo da conscientização individual para tornar-se uma plataforma de influência em políticas públicas.
Simbolismo do Post-it e a Ressignificação do Tempo
A metodologia da campanha em 2026 utilizou o símbolo visual do post-it para representar uma mudança na relação do sujeito com o tempo e com as emoções. Historicamente associados a lembretes de obrigações, pressa e produtividade, os pequenos suportes coloridos foram ressignificados como veículos de mensagens de autocuidado e humanidade. A mensagem central — “não posso me abandonar” — visa combater a lógica da exaustão que permeia o cenário corporativo e acadêmico contemporâneo.
Dados Epidemiológicos e o Impacto Econômico
O contexto da campanha é sustentado por números alarmantes. Em janeiro de 2026, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicavam que mais de um bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais globalmente, com a ansiedade e a depressão liderando as estatísticas. O Brasil permanece em uma posição crítica, ocupando o topo do ranking mundial de transtornos de ansiedade, afetando cerca de $9,3\%$ da população, o que representa aproximadamente 18 milhões de pessoas.
O impacto econômico desse cenário é profundo. Estima-se que os custos globais com o tratamento dos transtornos mentais mais prevalentes superem US$ 1 trilhão por ano. No Brasil, essa realidade reflete-se no ambiente de trabalho: em janeiro de 2026, reportagens destacaram um aumento de $79\%$ nas licenças médicas por transtorno mental nos últimos dois anos. Este aumento está diretamente ligado ao fenômeno do “Workismo” — o trabalho como centro de identidade e dependência emocional — e à discussão sobre a sustentabilidade da escala de trabalho $6 \times 1$.
| Indicador de Saúde Mental (Janeiro 2026) | Dado Estatístico | Fonte |
| Prevalência de Ansiedade no Brasil | $9,3\%$ da população | OMS / Covitel |
| Aumento de Licenças Médicas (2 anos) | $79\%$ de alta | Estadao |
| Custo Global de Transtornos Mentais | > US$ 1 trilhão / ano | ONU / OMS |
| Mercado de Tratamento de Ansiedade (2025) | US$ 12,33 bilhões | Towards Healthcare |
Engajamento Institucional e Comunitário
A capilaridade da campanha em janeiro de 2026 foi evidenciada por ações em diversos níveis. No âmbito do Ministério Público brasileiro, o Fórum Nacional de Atenção à Saúde Mental (Fonasm-MP) utilizou o mês para reforçar a Política Nacional de Atenção à Saúde Mental de seus integrantes, promovendo ambientes laborais mais seguros e acolhedores. Em nível municipal, unidades de saúde como a UPH Saldanha Marinho, em Campos dos Goytacazes, realizaram ações de conscientização direta com pacientes e equipes, utilizando mensagens reflexivas para humanizar o atendimento hospitalar.
O Novo Horizonte Regulatório: Exames Criminológicos e a Ética Profissional
Uma das atualizações mais críticas de janeiro de 2026 foi a publicação da Nota Técnica do Conselho Federal de Psicologia orientando a atuação no sistema prisional. O documento surge como uma resposta necessária à Lei $14.843/2024$, que alterou a Lei de Execução Penal (LEP) para impor a obrigatoriedade do exame criminológico para a progressão de regime.
O Conflito entre Segurança Pública e Ética Psicológica
A imposição legal do exame criminológico coloca o psicólogo em uma posição de tensão ética. O CFP, por meio da Nota Técnica, oferece diretrizes para que as profissionais atuem de forma crítica, evitando que a avaliação seja reduzida a um instrumento de mera punição ou “adivinhação” de comportamentos futuros. O glossário de termos incluído na nota reforça o princípio da individualização da pena, lembrando que o papel da psicologia no sistema prisional deve ser o de compreender as singularidades das pessoas privadas de liberdade e não apenas validar decisões judiciais.
Para o psicólogo que atua na área jurídica ou prisional, a nota técnica serve como escudo ético, permitindo que o profissional recuse a realização de procedimentos que firam a autonomia da psicologia ou que não possuam fundamentação científica sólida. A orientação é que os documentos escritos decorrentes desses exames sigam rigorosamente as resoluções vigentes do CFP sobre a elaboração de laudos e pareceres.
Inovação Tecnológica e Inteligência Artificial na Clínica e na Gestão
Janeiro de 2026 consolidou a Inteligência Artificial (IA) não mais como uma promessa futura, mas como uma ferramenta essencial na prática psicológica. Se em 2024 o debate era sobre a possibilidade de uso, em 2026 o foco é no uso ético e eficiente da tecnologia para proteger o tempo e a energia mental do profissional.
IA Administrativa e Clinicamente Assistida
Dados compilados em janeiro mostram que profissionais da saúde gastam entre $20\%$ e $60\%$ de seu tempo em tarefas administrativas e burocráticas. A adoção de sistemas de IA para a gestão de prontuários, evoluções e organização de agendas atingiu cerca de $60\%$ das organizações de saúde. O objetivo dessa automação não é substituir o terapeuta, mas sim devolver-lhe o foco clínico.
Na esfera clínica, a pesquisa da American Psychological Association (APA) destaca o uso de dados de sensores passivos de dispositivos móveis e vestíveis (wearables). Estes sensores monitoram métricas como tempo de sono, movimentação, interações sociais e até mudanças no tom de voz, permitindo uma seleção de tratamento mais precisa e diminuindo a fase de “tentativa e erro”. O estudo da APA demonstra que o uso da IA para analisar volumes vastos de dados pode identificar padrões de comportamento que passariam despercebidos pelo próprio paciente e pelo terapeuta em sessões semanais isoladas.
| Ferramenta / Plataforma IA | Função Principal em 2026 | Impacto Reportado |
| Therabot | Chatbot generativo de suporte emocional | Redução de $51\%$ nos sintomas de depressão em 8 semanas |
| Yana | Monitoramento de humor e TCC assistida | Espaço seguro e anônimo para suporte 24/7 |
| Holly Health (HH) | Coaching de saúde para multimorbidade | Aumento significativo na satisfação com a vida e redução de ansiedade |
| Análise de Sensores Passivos | Monitoramento biométrico e comportamental | Identificação precoce de riscos de suicídio e recaídas |
O Advento da Terapia Algorítmica e seus Riscos
Apesar dos benefícios, o “amanhecer da terapia algorítmica” traz preocupações profundas. Reportagens da MIT Technology Review em janeiro de 2026 alertaram para o risco de “espirais delirantes” provocadas por alucinações de IA em usuários vulneráveis. Casos trágicos de famílias processando empresas de tecnologia por contribuições de chatbots em episódios de suicídio foram relatados, reforçando que a IA deve ser um adjunto ao tratamento humano, e não um substituto.
O CEO da OpenAI, Sam Altman, revelou que uma pequena parcela de usuários ($0,15\%$) já utiliza o ChatGPT para conversas de teor terapêutico profundo. No entanto, a falta de empatia real, intuição clínica e compreensão do contexto cultural e histórico de vida do sujeito permanece como a barreira intransponível que garante a essencialidade do psicólogo humano.
Jurisprudência e Saúde Suplementar: O Impacto nas Clínicas e Consultórios
O cenário jurídico de janeiro de 2026 foi marcado por decisões de tribunais superiores que redefiniram as obrigações das operadoras de planos de saúde em relação aos tratamentos de saúde mental.
A Decisão do STF sobre o Rol da ANS (ADI 7.265)
O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) $7.265$, fixou critérios rígidos para que os planos de saúde cubram tratamentos fora da lista da ANS. Para que o tratamento seja obrigatório, ele deve seguir cinco critérios cumulativos:
- Prescrição por médico ou odontólogo assistente.
- Não ter sido negado expressamente pela ANS ou estar pendente de análise.
- Ausência de alternativa terapêutica adequada no rol atual.
- Comprovação científica de eficácia e segurança.
- Registro na Anvisa.
Esta decisão gerou controvérsia. Órgãos como o Idec argumentam que ela beneficia economicamente as operadoras em detrimento da saúde dos usuários, enquanto entidades hospitalares defendem que a medida traz segurança jurídica e evita a judicialização excessiva. Para o psicólogo, isso significa que a fundamentação técnica de seus relatórios para solicitação de coberturas extraordinárias deve ser mais robusta e baseada em evidências científicas de alto nível.
Cobertura para Autismo e Transtornos do Desenvolvimento
Em uma direção mais favorável aos profissionais e pacientes da área do neurodesenvolvimento, a ANS consolidou em janeiro de 2026 a obrigatoriedade de sessões ilimitadas de psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional para beneficiários portadores de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outros transtornos globais do desenvolvimento (CID F84).
A agência determinou que a operadora deve oferecer atendimento por prestador apto a executar o método indicado pelo profissional assistente, citando explicitamente abordagens como ABA, Denver, PECS, DIR/Floortime e Son-Rise. Esta resolução é um marco para a psicologia do desenvolvimento, pois garante a continuidade do tratamento sem as interrupções burocráticas por “estouro de limite” de sessões, permitindo uma evolução clínica mais consistente.
Psicomotricidade e a Formação do Profissional
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) proferiu uma decisão relevante em janeiro ao estabelecer que as operadoras não podem limitar as sessões de psicomotricidade nem exigir que o profissional que as realiza tenha formação obrigatoriamente em psicologia, desde que possua a qualificação legal de especialista na área (incluindo profissionais da saúde ou educação com pós-graduação específica). Esta decisão clarifica o campo de atuação da psicomotricidade como uma prática multidisciplinar, evitando que os planos de saúde utilizem a falta de formação em psicologia como subterfúgio para negar a cobertura.
Fronteiras da Ciência: Pesquisas e Publicações de Janeiro de 2026
A produção científica de janeiro trouxe novos olhares sobre a conexão mente-corpo e o impacto do ambiente na cognição.
A Conexão com a Natureza e Restauração Cognitiva
Estudos publicados em janeiro reforçaram a Teoria da Restauração da Atenção (ART). Experimentos demonstraram que interações com ambientes naturais (ou até a visualização de imagens da natureza) melhoram as habilidades de atenção dirigida, medidas por tarefas de memória de trabalho (backwards digit-span task). A pesquisa sugere que a natureza captura a atenção de forma “bottom-up” (de baixo para cima), permitindo que os mecanismos de controle cognitivo “top-down” (de cima para baixo) descansem e se recuperem. Este dado é particularmente útil para psicólogos que trabalham com transtornos de déficit de atenção ou esgotamento mental em ambientes urbanos.
Trauma e Dor Física: Um Ciclo de Auto-reforço
Uma pesquisa da University of Nevada (UNLV) publicada em janeiro de 2026 revelou um padrão bidirecional complexo entre sintomas de estresse pós-traumático (TEPT) e dor física em sobreviventes de violência sexual. O estudo utilizou monitoramento em tempo real (quatro vezes ao dia por seis semanas) para mostrar que picos de sintomas de TEPT muitas vezes precedem episódios de dor aguda, e que a intensidade da dor contribui para o agravamento dos sintomas psicológicos subsequentes. A implicação para a clínica é clara: o tratamento deve ser integrado e “trauma-informado”, abordando simultaneamente as queixas físicas e psíquicas para alterar a trajetória de recuperação do paciente.
Novas Fronteiras na Saúde Mental e Física
No campo da psiquiatria biológica e farmacologia, janeiro trouxe atualizações relevantes:
- Asma e Depressão: Estudos identificaram que níveis elevados de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro) estão associados a piores sintomas depressivos em adultos com asma, sugerindo que a depressão relacionada à inflamação pulmonar possui uma biologia distinta do transtorno depressivo maior clássico.
- Neuromodulação Domiciliar: A aprovação do ProlivRx como a primeira terapia de neuromodulação em casa dirigida por médico para depressão resistente representa um marco na acessibilidade tecnológica do tratamento psiquiátrico.
- Envelhecimento Saudável: Pesquisas integrando nutrição e atividade física destacaram que o desafio atual não é apenas viver mais, mas preservar a função física e a qualidade de vida (healthspan), onde o psicólogo atua como mediador da mudança de hábitos.
Crítica Epistemológica: A Psiquiatria Social e o Sul Global
O mês de janeiro foi marcado pelo 25º Congresso Mundial de Psiquiatria Social em Marrakesh e pela 77ª Conferência da Sociedade de Psiquiatria Indiana. Os debates centraram-se na necessidade de “desafetuar” a psiquiatria e a psicologia das amarras do individualismo ocidental.
O Modelo “I-Centered” em Xeque
Especialistas argumentaram que as “disciplinas psi” repousam sobre três premissas centradas no “Eu” (I-centered assumptions) que podem ser limitantes:
- O indivíduo como a unidade primária de análise e intervenção.
- A introspecção como método central.
- O insight como objetivo terapêutico primordial.
Em contrapartida, modelos orientais e do Sul Global propõem uma psicologia mais relacional e social, focada nos determinantes sociais da saúde mental e em terapias comunitárias. A proposta de uma “psiquiatria social clínica” envolve o uso de ferramentas como a Entrevista de Formulação Cultural do DSM-5 para integrar o contexto estrutural do paciente ao trabalho clínico, evitando a patologização de sofrimentos que possuem raízes na desigualdade e no isolamento social.
Gestão de Carreira e Atualizações Institucionais (CRP-05 e CRP-06)
No dia a dia profissional, os Conselhos Regionais emitiram comunicados importantes em janeiro de 2026.
CRP-06 (São Paulo)
O CRP-06 publicou a Resolução $01/2026$ em 26 de janeiro, alterando normas sobre ressarcimento de verbas indenizatórias e viagens institucionais. Houve também a divulgação de um novo edital de avaliação periódica de desempenho para os trabalhadores do conselho, refletindo esforços de melhoria na gestão interna e na eficiência do atendimento à categoria. Um ponto de atenção foi a exoneração de cargos na coordenação de ética, sinalizando possíveis reestruturações no processamento de questões disciplinares em 2026.
CRP-05 (Rio de Janeiro)
O CRP-05 destacou-se pela campanha de regularização financeira, oferecendo descontos de até $10\%$ para o pagamento da anuidade de 2026 até o final de janeiro. Além disso, o conselho publicou notas técnicas cruciais, incluindo orientações para o exercício profissional com crianças e adolescentes e referências técnicas sobre a atuação de psicólogos junto a pessoas idosas em políticas públicas.
O Caso de Ética e Mídia: Repercussão Nacional
Um evento de grande repercussão midiática em janeiro de 2026 foi o processo contra a psicóloga Aline Alves de Lima, acusada de ofender a filha do empresário Roberto Justus em redes sociais. A profissional comentou uma foto da criança com frases de ódio, o que resultou em um pedido de indenização de $R\$ 100$ mil por membro da família. O caso serve como um alerta severo para a categoria sobre a conduta nas redes sociais. A dificuldade da justiça em localizar a psicóloga para citação, descrita pela mídia como um “olé” no sistema judiciário, mancha a imagem da profissão e reforça a necessidade de vigilância constante sobre os limites éticos da livre expressão do profissional.
Educação Continuada: Agenda de Eventos e Literatura para 2026
Para o profissional que planeja sua formação em 2026, janeiro trouxe a confirmação de importantes eventos e lançamentos literários.
Calendário de Congressos
| Evento | Data | Local / Modalidade |
| I Congresso Online Internacional: Boas Práticas em Clínica | 06 e 07 de Março | Online |
| III ConNeuroPsi – Congresso de Neurociência e Psicologia | 05 a 07 de Março | Recife, PE |
| II Congresso Internacional – Cuidado em Álcool e Drogas | 20 e 21 de Março | Belo Horizonte, MG |
| Congresso Jornada do TEA | 28 e 29 de Março | Rio de Janeiro, RJ |
| VI Congresso Brasileiro de Psicologia Positiva | 24 a 27 de Junho | Campinas, SP |
Recomendação de Leitura de Janeiro de 2026
A produção editorial de janeiro de 2026 focou em temas de desaceleração, gestão emocional e novas perspectivas clínicas:
- “Sobre Querer Mudar” (Adam Phillips, Ed. Ubu): Um convite a repensar a visão idealizada sobre transformações radicais e o significado da mudança na psicanálise.
- “Manual de Desinstrução para Tempos de Incerteza” (Alessandro Marimpietri): Aborda a lucidez necessária em tempos de hiperconexão e ansiedade.
- “Cuidar da Solidão até virar Encontro” (Alexandre Coimbra Amaral, Ed. Vestígio): Uma obra fundamental para psicólogos clínicos que lidam com a epidemia de solidão contemporânea.
- “AtmaSoma: O Equilíbrio entre Ciência e Prazer” (Alessandra Rascovski): Uma visão integrativa entre metabolismo, emoções e comportamento.
- “A Voz na sua Cabeça” (Ethan Kross, Ed. Sextante): Técnicas de regulação emocional baseadas em neurociência para lidar com o crítico interno.
Considerações Finais e Perspectivas para 2026
O panorama de janeiro de 2026 revela uma psicologia brasileira em um momento de transição crítica. A força da categoria está sendo testada em frentes variadas: no Congresso, na busca por dignidade salarial; na justiça, na defesa da autonomia clínica frente aos planos de saúde; e na tecnologia, na integração de ferramentas de IA que podem potencializar ou precarizar o cuidado.
A tendência observada é a de uma psicologia mais personalizada e baseada em dados, mas que simultaneamente reclama sua essência social e relacional. O aumento de $79\%$ nas licenças médicas por transtorno mental aponta para uma falência nos modelos de gestão de trabalho atuais, colocando o psicólogo não apenas como um remediador de sofrimentos, mas como um ator político e estratégico fundamental para a sustentabilidade da sociedade moderna.
Para o profissional, o ano que se inicia exige uma dupla competência: o domínio técnico das novas ferramentas digitais e o aprofundamento ético e teórico para navegar em um mundo onde o sofrimento humano está cada vez mais mediado por telas, algoritmos e pressões econômicas. A união da categoria em torno de pautas como o piso salarial e a exclusividade da psicoterapia será o diferencial para que a psicologia brasileira continue sua trajetória de reconhecimento e excelência em 2026.

