Se abril foi o mês do autodiagnóstico e da identidade — o paciente chegando com o rótulo pronto —, maio foi o mês do corpo.
Corpo da depressão, que a ciência parou de tratar como simples química de neurotransmissor. Corpo da gestante, enfim liberado de um pânico que durava uma década. Corpo do apostador endividado, que chega ao consultório com a falência e a ideação no mesmo pacote. E o corpo social — raça, classe, território — que a Reforma Psiquiátrica, aos 25 anos, voltou a pôr no centro da clínica.
Selecionei o que maio produziu de mais relevante e separei o que é notícia nova do que é só barulho. Não cobri tudo — cobri o que atravessa a porta do consultório.
Nesta edição
- A depressão para além da serotonina (imunopsiquiatria + MST)
- Gravidez, antidepressivo e o fim de um pânico
- As bets chegaram ao divã — agora com números
- 25 anos da Reforma: a clínica também é território
- No radar: CFP, psilocibina e NR-1
- Cultura: 170 anos de Freud e a cor do inconsciente
- Agenda
1. A depressão para além da serotonina
Durante décadas tratamos a depressão como um déficit de monoaminas — serotonina, dopamina, noradrenalina. Maio trouxe duas evidências que empurram esse modelo para o lado e exigem que a gente atualize a psicoeducação que oferece ao paciente.
A depressão que inflama. Cerca de um terço das pessoas com depressão tem marcadores inflamatórios elevados no sangue (PCR, citocinas) — um estado de inflamação crônica de baixo grau que mexe com a neuroplasticidade e o humor. Em maio, um ensaio de prova de conceito publicado no JAMA Psychiatry (Universidades de Bristol e Cambridge) testou bloquear a interleucina-6 — uma citocina inflamatória — com uma dose única de tocilizumabe (um remédio de artrite reumatoide) em pacientes com depressão de moderada a grave que não respondiam aos antidepressivos. O resultado: melhora dos sintomas somáticos da depressão, de forma independente de qualquer doença física. É a depressão sendo tratada pela via do sistema imune.
Na prática clínica. Isso muda o manejo da culpa. O paciente refratário costuma ler a falha do tratamento como falha moral — “nem remédio funciona em mim”. Nomear o subtipo inflamatório desmonta esse roteiro e dá sentido às intervenções de estilo de vida que potencializam a resposta: sono, atividade física, manejo do estresse crônico (que retroalimenta o cortisol e a inflamação). Não é “pensar positivo”; é fisiologia.
A neuromodulação que não apaga a biografia. Para a depressão grave e resistente, a eletroconvulsoterapia (ECT) segue sendo o tratamento mais eficaz que temos — e o mais recusado: só cerca de 1% dos pacientes elegíveis aceita, por estigma e, sobretudo, por medo da perda de memória. Em maio, o Lancet Psychiatry publicou o CREST-MST, o maior ensaio randomizado já feito comparando a ECT à Terapia Magnética Convulsiva (MST), com quase 300 pacientes. A MST usa um campo magnético focal que poupa o lobo temporal medial — a região da memória.

Os resultados: eficácia não-inferior (resposta clínica em torno de 48% nos dois grupos; remissão de 22,5% na MST contra 27,8% na ECT) e um perfil cognitivo muito mais favorável — a MST preserva a memória autobiográfica que a ECT tende a comprometer.
Na prática clínica. Uma neuromodulação que não apaga a história de vida do sujeito muda a conversa com a equipe psiquiátrica e com a família. Você pode discutir um encaminhamento de alta eficácia sabendo que o paciente seguirá com o lastro de memória necessário para o trabalho de elaboração. O acesso ainda depende de regulação e de centros habilitados — mas a opção existe.
Gravidez, antidepressivo e o fim de um pânico
Poucas decisões geram tanta angústia no consultório perinatal quanto manter ou suspender o antidepressivo na gravidez. O medo de “causar autismo no bebê” leva muitas mulheres a parar a medicação de uma hora para outra — com risco de recaída grave, ideação suicida e os efeitos do cortisol materno na gestação.
Em 14 de maio, o Lancet Psychiatry publicou a maior meta-análise já feita sobre o tema: 37 estudos, mais de 648 mil gestações com antidepressivo e quase 25 milhões sem. A leitura honesta dos dados é a virada.

Sem ajuste, havia um pequeno aumento de risco (+35% para TDAH, +69% para autismo). Mas, ao ajustar para a genética e a saúde mental dos pais, a associação praticamente desaparece. A prova mais elegante: o uso de antidepressivo pelo pai durante a gestação — que não toca o útero — também se associou a mais TDAH (+46%) e autismo (+28%). Ou seja: o risco vem da carga familiar e genética, não do remédio. A única exceção foram dois tricíclicos antigos (amitriptilina e nortriptilina).
Na prática clínica. Você tem agora o peso da melhor evidência disponível para desmontar a culpa materna e sustentar, ao lado do psiquiatra, a decisão de não abandonar um tratamento vital. Para depressão moderada a grave, o risco da recaída supera, e muito, o risco putativo da medicação. Cuidar da saúde mental da mãe — e do pai — é cuidar do neurodesenvolvimento da criança.
As bets chegaram ao divã — agora com números
A dependência de apostas já tinha entrado na nossa pauta. O que maio trouxe foi a dimensão: o tema deixou de ser tendência e virou, oficialmente, emergência de saúde pública.

Em audiência pública na Câmara (fim de maio), o Ministério da Saúde revelou que a busca por atendimento em saúde mental no SUS por dependência de apostas cresceu quase 140% em cinco anos. A plataforma de autoexclusão do Ministério da Fazenda já passou de 574 mil cadastros — e 41% deles (207 mil pessoas) apontaram a perda de controle e o impacto na saúde mental como motivo. Em 2025, os cerca de 25 milhões de apostadores do país perderam algo como R$ 38 bilhões. O governo assinou ainda um repasse para a primeira pesquisa nacional sobre apostas e saúde mental, conduzida pela Unifesp.
Na prática clínica. O endividamento escala a ideação suicida — por isso a avaliação de risco vira item obrigatório nas primeiras sessões com esse perfil. O trabalho combina desconstrução das distorções cognitivas (a “falácia do apostador”, a perseguição da perda), medidas de contingência financeira em rede (retirar o controle de contas e cartões, envolver a família) e a reconstrução de um sistema de recompensa que não passe pela tela. A dependência comportamental de apostas online não é o jogo patológico de antigamente: a arquitetura algorítmica de “quase-ganho” foi desenhada para sequestrar a dopamina.
25 anos da Reforma Psiquiátrica: a clínica também é território
Em maio, a Fiocruz Brasília e o Ministério da Saúde realizaram o encontro que marcou os 25 anos da Lei nº 10.216 — a espinha da Reforma Psiquiátrica e da luta antimanicomial — e lançaram o documento clínico “CAPS como bem te quero”, fruto da supervisão de mais de 300 Centros de Atenção Psicossocial.
O guia reafirma a Clínica Ampliada: o sofrimento psíquico não acontece num vácuo neurológico. Ele se entrelaça com determinantes sociais — raça, classe, gênero, território, violência. O material usa o caso (ficcional, mas estatisticamente típico) de “Dandara”, mulher negra, mãe solo, para mostrar como o sistema historicamente leu exaustão interseccional como “surto” e respondeu com internação, quando o caminho é reabilitação no território e geração de renda.
Na prática clínica. Vale também para quem atende no privado: formular um caso ignorando classe, raça, território e gênero é reduzir a um problema químico intrapsíquico um sofrimento que é, em boa parte, produzido pelo ambiente. Escuta sistêmica não é militância — é precisão técnica.
📌 No radar (rápidas)
CFP, em duas frentes. Em 22 de maio, o Conselho Federal de Psicologia publicou manifesto contra a patologização de pessoas intersexo, pedindo a suspensão de cirurgias compulsórias de “adequação” em bebês e crianças e reafirmando a escuta afirmativa no consultório. No mesmo mês, o CFP deu subsídios (Resolução nº 12/2024) para que os CRPs adiem ou reduzam anuidades de psicólogos atingidos por desastres ambientais — os mesmos profissionais convocados para os primeiros socorros psicossociais.
Psilocibina e cocaína. Um ensaio no JAMA Network Open (maio) testou uma dose única de psilocibina com psicoterapia de integração para transtorno por uso de cocaína — sem medicação aprovada até hoje — e encontrou taxas maiores de abstinência, com foco deliberado em homens negros de baixa renda. O recado para nós: o psicodélico é catalisador; a mudança real mora na integração psicoterapêutica.
NR-1 em vigor. Desde 26 de maio, a gestão de riscos psicossociais no trabalho passou a ser obrigação legal das empresas. A demanda por avaliação e cuidado do sofrimento ocupacional tende a crescer — e a chegar ao seu consultório.
Cultura: 170 anos de Freud e a cor do inconsciente
Em 6 de maio, Freud completaria 170 anos — e a efeméride rendeu uma pergunta que vale para 2026: como a psicanálise sobrevive numa época de métricas, algoritmos que adivinham o desejo antes do sujeito e uma psiquiatria cada vez mais biológica? A resposta que atravessou os simpósios é a de sempre, e por isso mesmo subversiva: o “eu não é senhor da própria casa”. No divã, a palavra não precisa produzir utilidade imediata — e é esse tempo lento que a hipermodernidade não computa.
No mesmo fôlego, voltou ao centro do debate a discussão sobre raça e psicanálise — a “cor do inconsciente” de que fala Isildinha Baptista Nogueira: o significante racial não opera só fora, como barreira social, mas dentro da topologia psíquica do sujeito, produzindo modos singulares de sofrimento. Letramento racial deixou de ser tema lateral; é base da escuta qualificada na clínica brasileira.
Agenda
- XXIII Congresso Nacional CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos) — Salvador, 4 a 7 de junho. Tema: psiquiatria, psicologia e espiritualidade.
- Curso “A tempo e junto: redes e direitos em situações de crise” — Fiocruz/MS, EaD gratuito, 15 mil vagas, 120h. Inscrições abertas; atividades de junho a dezembro. Manejo de crise, desescalada e suporte por pares.
- Já aconteceram em maio, mas valem o registro: o III COPSIB (Congresso Online de Psicoterapia Brasileira, 7–9/5) e o VIII Congresso Internacional de Saúde Mental Infantojuvenil, em Fortaleza (29–30/5).
Maio nos lembrou que a clínica não escolhe entre o corpo e a história: ela trabalha nos dois. A ciência mostrou que a depressão tem biologia que ainda estávamos aprendendo a ler; o Brasil mostrou que há feridas — apostas, racismo, desigualdade — que chegam ao divã inteiras. Nosso ofício é não reduzir nenhuma das duas coisas à outra.
Nos vemos em julho.
— Boletim Psifllux
